domingo, 30 de março de 2014

Relações precoces


Caracterização das relações precoces

Caracterização:  Relação que o bebé estabelece com a mãe e com os adultos que cuidam dele. Estas relações são responsáveis pela construção do nosso eu, que é formado pelo que pensamos, sentimos e aprendemos.

A imaturidade do bebé:

O ser humano nasce imaturo. Essa imaturidade é o elemento decisivo no processo de desenvolvimento da espécie e torna-o dependente, durante muito mais tempo, dos adultos.

As competências básicas do bebé:

O bebé apresenta um conjunto de capacidades e competências que estimulam aqueles que o rodeiam a satisfazer as suas necessidades.

Competências para comunicar:
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    Regulação mútua: é o processo em que existe a resposta a estímulos bidirecionais de modo adequado e visando o equilíbrio da própria relação.
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   Sujeito ativo: emite sinais daquilo que pretende e responde, com agrado ou desagrado, ao tratamento disponibilizado.

                                                 

Estratégias comportamentais do bebé:
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    Sorriso:

Após o nascimento – sorrisos automáticos, reflexos e involuntários

Das 6 às 12 semanas – sorri como meio de comunicação intencional

Aos 6 meses – sorri apenas para quem conhece – sorriso social
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    Choro – manifesta uma necessidade ou um mal-estar:

    1.       Choro básico de fome
    2.       Choro de raiva 
    3.       Choro de frustação
    4.       Choro de dor
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   Espressões faciais – são o manifesto das emoções. Têm um valor comunicacional porque transmitem uma mensagem que tem a espectativa de uma resposta.
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    Vocalizações – são uma resposta às vocalizações dos adultos. Chama-se de lalação ao tipo de vocalizações produzidas entre os 3 e os 6 meses

As competências básicas da mãe:

Entre o nascimento e os 18 meses, o bebé mantém uma relação privilegiada com a mãe, que oscila entre a confiança e a desconfiança. Se a mãe cuida do bebé, se está disponível para responder às suas solicitações, desenvolve um sentimento de confiança fazendo-o sentir-se seguro, caso contrário o bebé desenvolve um sentimento de desconfiança que se manifestam por medos e receios.
 Segundo Erikson, o sentimento de confiança reflete-se ao longo da vida manifestando-se numa capacidade de adaptação às pessoas e às situações em contexto social.

Modelo continente/conteúdo

Continente: a mãe é depositária das sensações e emoções que o bebé envia.

Conteúdo: sensações, emoções que o bebé ainda não é capaz de organizar por si.

Uma mãe continente reage às necessidades do bebé dando acolhimento à angústia e à ansiedade do filho sem as devolver através de comportamentos ou atitudes ansiosas e angustiadas. A boa mãe comunica eficazmente, “comunica poeticamente com o seu bebé”. Reage às necessidades do bebé transformando inquietação em segurança, desconforto em bem-estar, tornando tolerável a sua angústia, fazendo-o sentir-se amado e compreendido. Assim estabelece-se uma relação de harmonia essencial para o equilibrio psicológico.

Importância das fantasias da mãe face ao bebé:

As fantasias (suposições sobre o sexo do bebé, com quem será parecido, como se comportará) que a mãe tem, antes do nascimento, face ao seu bebé, resultam num vinculo a um bebé imaginário que se ajustará, após o nascimento, ao bebé real. Assim, o processo de adaptação do recém-nascido a um novo mundo é acompanhado por um processo de adaptação dos pais a uma nova situação, dado que o bebé idealizado dará lugar ao real com características que lhe são próprias.



A estrutura da relação do bebé com a mãe

A importância da relação de vinculação:

Vinculação: necessidade de contactos físicos, ou seja, de criar e manter relações de proximidade e afetividade com os outros, de o bebé se apegar a outros seres humanos para assegurar proteção e segurança. É uma necessidade primária e biológica, que responde a duas necessidades: proteção e socialização.

A investigação de Bowlby:

Bowlby desenvolveu investigações sobre as relações entre as perturbações de comportamentos e a história da infância.
Conceito de imprinting: os recém-nascidos de determinadas espécies fixam a sua preferência relativamente aos indivíduos com quem contactam logo após o nascimento, esta experiência precoce marca o seu comportamento futuro.
Conclusões: Bowlby tem uma interpretação fisiológica da vinculação uma vez que considera que ela é inata e não aprendida (instintos). A vinculação existe também noutros mamiferos e é como um comportamento adaptativo.
As crianças e as crias afastadas dos progenitores sofrem um conjunto de sintomas que vão desde a perturbações físicas às emocionais.

A investigação de Mary Ainsworth:

Através da Situação Estranha, o procedimento experimental que Mary Ainsworth desenvolveu, distinguiram-se três categorias de vinculação:
    
  Vinculação segura:As crianças choram com a ausência da mãe e procuram o contacto físico logo que ela regressa à sala.
     
   Vinculação evitante: As crianças sentem-se indiferentes à separação e ao regresso da mãe.
    
   Vinculação resistente:As crianças revelam ansiedade antes da mãe sair e quando esta abandona a sala. Quando ela regressam oscilam entre a aproximação e o afastamento.

Críticas à teoria de M. Ainsworth:

   
       O carácter artificial da esperiência (meio estranho â criança)

    Ela cria um modelo único de avaliação mãe-bebé (como sabemos, a vinculação pode assumir formas distintas em função das diferentes culturas e isso não parece ter sido um aspeto considerado na experiência).

  Os registos socioculturais e económicos influenciam o que se considera o comportamento desejável para a relação mãe-bebé. (Ex. Uma mãe solteira pode querer valorizar a relação da crianças com outros cuidadores, criando assim vinculações múltiplas.)

As relações precoces no tornar-se humano

Da díade à tríade:

Os seres humanos são os animais que mantêm laços de relação prolongados no acompanhamento dos seus descendentes, o que implica, complementarmente a outros fatores, uma organização social única. Por essa razão, o bebé, que já tem uma relação fortalecida com a mãe, vai criar também uma relação com o pai, já que este se encontra também muito próximo de si.
Este tipo de relações tem vindo a alterar-se, concretamente nas sociedades ocidentais, com as grandes mudanças decorrentes da revolução industrial, e a sua qualidade marca a qualidade das relações futuras.

A figura de vinculação

Por vezes a figura da mãe pode ser substituída por agentes maternantes, como as mães de substituição, os pais ou outros familiares. Estes têm capacidade de estabelecer também uma vinculação forte com a criança, desde que proporcionem um ambiente consistente, sensível, acolhedor e apoiante. Isto é possível porque não existe uma predisposição biológica específica de vinculação com a mãe biológica.
Vinculações múltiplas: resultam da integração das crianças em jardins de infâncias entre outros meios que lhes proporcionem o contacto com várias pessoas.

Vinculação e equilíbrio psicológico

O envolvimento físico e emocional que se estabelece devido à vinculação mãe-bebé, permite que a criança cresça equilibradamente para fazer face às necessidades e dificuldades do dia a dia.

A boa qualidade da relação com a mãe manifesta-se numa relação mais equilibrada com o próprio corpo, sem tensão e inibições excessivas, adoptanto uma maior proximidade com os outros. Estas representações relacionais, contribuem também para a estruturação da sexualidade.

Afetividade: é construída através do contacto com a pele, o prazer da fome e da sede saciado, o aconchego do corpo, os sabores, os sons, entre outros elementos que o bebé recebe e aprende com o pai e a mãe.

A um processo de vinculação securizante corresponderá uma melhor regulação emocional, propiciará interações sociais positivas e seguras e aumenta a confiança nos outros. No entanto, é certo que existem outros fatores que condicionam o desenvolvimento psicossocial da criança e que o podem afetar, por vezes, negativamente.

Vinculação e individuação

A relação que o bebé estabelece com a mãe impele o bebé a explorar o meio, a afastar-se das figuras de vinculação. Este é o princípio do processo de autonomia, de separação. É o sentimento de segurança e de confiança em saber que os pais permanecem que motiva a criança a explorar o meio, a afastar-se.
Estar vinculado é o que se pode designar por “base de segurança” a partir da qual o bebé explora o mundo e para a qual regressa se se sentir ameaçado ou inseguro.
Na base do processo de individuação está a vinculação.
Individuação: é a uma necessidade primária do ser humano criar a sua própria identidade, de se distinguir daqueles com quem mantém laços de vinculação


As consequências das perturbações nas relações precoces

O psicólogo Harry Harlow desenvolveu várias experiências com macacos Rhesus que mostraram os efeitos da ausência da mãe.

1ª experiência:

Este construiu duas mães artificiais, uma de peluche e outra de arame, que forneciam alimento através de um biberão as macaquinhos. Harry observou que as crias passavam a maior parte do tempo agaradas à mãe de peluche; era junto dela que procuravam abrigo face a uma situação de perigo. Mesmo quando só estava presente a mãe de arame, os macaquinhos não procuravam a sua proteção numa situação ameaçadora. Por vezes, noutras situações, quando só existia alimento na mãe de arame, as crias mantinham-se agarradas à mãe de peluche recorrendo à mãe de arame só para procurar alimento.

2ª experiência (avaliar o efeito nos bebés macacos criados sem qualquer contacto):

Instalou as crias em jaulas de ferro vazias sem verem qualquer ser vivo durante três meses a um ano. Posteriormente observou que os animais encostavam-se ao fundo do compartimento, balançavam-se para a frente e para trás, abraçavam-se a si próprios e mordiam-se. Face a outros macacos tinham um comportamento evitante e um desempanho sexual afetado. Quando tinham crias não demonstravam qualquer interesse por elas e por vezes maltratavam-nas.

Conclusão das experiências:

O vínculo entre a cria e a mãe está mais relacionado com o conforto do que com a alimentação. E esta necessidade básica de contacto físico é também observável em bebés humanos, já que estes manifestam necessidade de estar próximo da mãe.
A origem da vinculação encontra-se, assim, na necessidade de conforto e não na alimentação.
Por outro lado, a ausência da mãe, traduzir-se-ia em perturbações físicas e psicológicas profundas, no entanto, no caso dos humanos, estes têm capacidades extraordinárias de adaptação e de recuperação face a essas perturbações.
Crianças resilientes – são crianças que ultrapassam as condições difíceis e traumáticas por que passaram.


O Hospitalismo, segundo René Spitz
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    Conjunto de sintomas característicos de crianças institucionalizadas, (em hospitais, orfanatos, colégios internos, etc.) e portanto privadas de uma relação privilegiada com um agente maternante.
Sintomas:

- Crianças até aos 6 meses: Aspeto infeliz, apatia, relativa imobilidade, falta de sucção dos objetos, palidez, perturbações do sono.

-Crianças (3 aos 6 anos):  Ausência de sorriso diante de uma figura humana, diminuição do interesse e da capacidade de reação, vivacidade quase nula, atraso do desenvolvimento psicomotor.

-Adultos:desordens e distúrbios de personalidade (comportamentos obsessivo/compulsivo, esquizofrenia),atrasos cognitivos, grandes dificuldades de relacionamento interpessoal.


Entre outras perturbações físicas e disturbios psicológicos distinguem-se também a apatia, anorexia, automutilação, fobia e estereotipia (repetição de comportamentos sem razão aparente).


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